Isso não se trata de um desabafo rouco de um pobre coitado à beira da morte. Não sou um ferrado prestes a perder a sanidade, tampouco minha vergonha. Não pretendo transformar em herois os bravos assassinos a quem chamo de irmãos, nem pensar, somos todos uns porcos mercenários matando por quem nos paga mais. A lógica é simples. Você me paga, eu executo o serviço com o melhor que posso oferecer em termos de armas, estratégia, tecnologia e ferocidade.
Não sou um guerreiro em uma cruzada de vingança e honra perdida, aliás, estou longe do conceito de herói romântico dos grandiosos poemas homéricos. De gigante e admirável somente nossa vontade de explodir tudo à nossa frente, sempre atirando primeiro e perguntando depois.
Sou parte de um processo lento e trabalhoso de aperfeiçoamento da arte da guerra. Sou um resultado, um executor. Entrei nessa por dinheiro e não me lembro de nenhum companheiro com razões nobres nessa profissão.
A morte é o meu produto e a guerra é o meu instrumento. Sou um exímio artesão sangrento. Carrego a cruz da minha vida sob a mira atenta de minha pistola e guardo no coldre qualquer pensamento diferente que possa me tirar o foco de minha missão. Sou nada mais que um trabalhador braçal no ofício do conflito armado.
Para os engravatados que nos contratam, somos apenas peças descartáveis de um engenhoso sistema político, para os que morrem em conseqüência de nossas ações somos seus carnífices, para o resto do mundo somos apenas mercadores da morte.
Isso não é um relato simples ou memórias de um soldado cansado. Muito pelo contrário, ainda tenho muita lenha para queimar e ainda me resta um olho bom e mais algumas costelas intactas para lesionarem. Apesar das cicatrizes nada me fará parar com meu trabalho. Já disse e repito, não estou nessa por causa da honra ou de colocar meu nome na história, eu sou descartável, um parafuso facilmente substituível. A grana que pagam é boa. Estou nessa também pela adrenalina, estou nessa pelo clichê do soldado louco. Sou um cão raivoso de guerra e em breve serei enterrado em uma vala comum, sem identificação, tal qual meu estilo de vida oferece. Isso não é ruim, contanto que eu morra coberto de sangue do meu algoz.
Isso que você está prestes a ler é o relato de uma mente equilibrada, não sou um louco e sádico, não vim de um lar destruído com um pai bêbado e uma mãe drogada, muito menos fui abusado quando criança. Sou advogado por formação acadêmica e mercenário por opção de vida. Sou o melhor no que faço e nada mudará minha cabeça.
Antes que você pense algo errado a meu respeito, devo lhe alertar que não mato crianças, mulheres e velhos, no entanto, aquele que apontar uma arma para meu peito com a leve intenção de puxar o gatilho, não posso deixá-lo impune. Ninguém, sob hipótese alguma deve apontar uma arma se for hesitar, essa é a primeira regra de sobrevivência. Se você apontou, atire para matar.
Em todos esses anos moldando meu caráter nos campos de sangue eu pude perceber o quão desprezível o ser humano é. O homem não passa de um animal maléfico. Não vejo homens bons. Sempre os procurei, mas no meio da lama e do fogo não é possível distinguir os bravos dos assassinos. É claro, tudo não passa do meu ponto de vista, um ser como eu, formado e graduado na universidade da sobrevivência e torpor humano.
Meu nome é Sebastian O’Keefe, 1° Sargento da Tropa Leo e Comandante do 2° Pelotão de Infantaria e eu não sou o personagem principal dessa merda de contos de guerra, afinal, eu não venci a morte sozinho, homens bravos estavam ao meu lado e é a história deles que também deve ser relatada. Esses são os diários de guerra de loucos sedentos por conflitos até os ossos. Não se espante com a realidade nua e crua que será mostrada a você.
E se você tem coração fraco e não agüenta esse tipo de coisa, pare de ler nesse momento, vá tomar um chá com biscoitos e assista televisão, deixe que um adulto de verdade veja como é o mundo real.